O Dilema das Redes

Imagine que estamos em uma mesa de jantar nos anos 90 e surge uma das típicas diputas sobre um dado de um país, digamos sobre saúde pública. Certo, nessa época a internet já fazia parte do cotidiano da vida da classe média em diversos lugares do mundo, mas ainda não era possível “dar um google”. Considerando os sites de busca precários, o acesso à informação passaria por uma consulta em sites da OMS, OCDE ou outra organização mundial. Valeria consultar um amigo pedindo um conselho de uma boa base de dados.

A internet dos anos 90 era como um grande livro com índice bastante precário, em que era preciso navegar muito para chegar ao lugar planejado. Em contrapartida, os intermediários entre nós e a informação eram muito menos poderosos. Esse espaço virtual foi perdendo seu aspecto de vilarejo com vários terrenos baldios para se transformar em um conglomerado de shopping centers e parques de diversão. Um universo bem indexado, pelo menos aos leigos, em que a maior parte do tempo é gasta vendendo seu próprio potencial de consumo.

É esse o estágio do uso da tecnologia que o recém-lançado documentário O Dilema das Redes, da Netflix, pretende apresentar. O documentário leva ao grande público o debate sobre o poder de manipulação das redes sociais e suas consequências. Abordando temas que vão de depressão e suicídio à desestruturação da democracia, a narrativa confronta o espectador às suas próprias vulnerabilidades, exploradas pelas grandes empresas do setor. O debate transcende a bolha daqueles que estão familiarizados a este tipo de questionamento, mas traz, em diversos pontos, uma abordagem rasa e mesmo problemática das questões tratadas.

Com mérito técnico e de fácil compreensão, O Dilema das Redes apresenta ex-engenheiros de altos cargos em grandes empresas de tecnologia, especialmente as GAFA (Google, Apple, Facebook, Amazon), que testemunham seus impasses éticos com seus antigos trabalhos. A partir desses relatos, explica-se o mecanismo de lucro dessas empresas, que buscam explorar a natureza humana a fim de nos manter o maior tempo possível conectados às suas plataformas. Nosso estilo de vida, opiniões e rotina são vendidos aos interesses de anunciantes que visam não só nossa atenção, mas também controle, mesmo que sutil, de nossos hábitos de consumo.

Embora os engenheiros programem os algoritmos que regem as redes, eles não são capazes de prever seu comportamento quando apresentados à quantidade colossal de dados que recebem. Nesse ponto, a própria estrutura de funcionamento do chamado deep learning dificulta o diagnóstico sobre os efeitos sociais desses algoritmos. A consciência do potencial destrutivo dessa ferramenta chega pelas próprias consequências sociais e individuais, e a percepção negativa das empresas cresce à medida que esses problemas ganham notoriedade.

O documentário explora a manipulação da vida cotidiana, utilizando partes de ficção para sensibilizar o público. Trabalha com dados sobre o agravamento dos problemas de ansiedade e depressão, mas, na maior parte do tempo, faz uma abordagem mais explicativa do que estatística, passando pela representação de uma família devastada pelas redes sociais. Nesse quesito, o roteiro parece bem-sucedido em convencer o espectador dos riscos da exploração econômica dessas tecnologias, bem como em explicar o modelo de negócio dessas empresas.

Foto por Oladimeji Ajegbile em Pexels.com

Há, no entanto, um equívoco na escolha dos que contam a história e, consequentemente, em suas narrativas. Ao priorizar ex-engenheiros que ajudaram a criar os tais aparatos tecnológicos, a impressão que deixa o documentário é de que a percepção do potencial danoso na atual configuração das grandes empresas de tecnologia é recente e que a descoberta parte essencialmente das próprias pessoas que criaram esses algoritmos.

A verdade é que o problema sempre foi visível e previsível, de forma que a escolha social tenha sido feita muito antes. Desde 1970, o movimento Software Livre, liderado na época por Richard Stallman, defendia um mundo onde os algoritmos estariam disponíveis a qualquer pessoa. O problema controverso do direito à propriedade intelectual dos códigos já foi, desde então, estudado por diversos intelectuais, como o americano Lawrence Lessig, criador do Creative Commons, plataforma que visa expandir a quantidade de trabalhos científicos e obras de arte disponíveis para cópia e compartilhamento.

O problema se agrava quando O Dilema das Redes se concentra nos danos causados pelas redes sociais às democracias ocidentais através da polarização e da propagação de fake news. Esse trecho, bastante curto para a importância do tema, é propositalmente desorganizado e escancara algumas limitações do documentário: imagens de protestos em Hong-Kong, França, e Myanmar são intercaladas com falas sobre caos social e personalização das timelines. Não é explicado o mecanismo dessas intervenções, nem por que cada uma dessas imagens seria reflexo delas, deixando um enorme vácuo no assunto e dando a entender que o algoritmo do Facebook seria, pura e simplesmente, responsável por esses eventos.

Os argumentos que justificam a propagação de fake news nas redes são rasos. Seria o suposto contraste entre uma realidade desinteressante e fake news simplistas que atrairiam as pessoas, evocando o potencial de engajamento gerado pela desinformação. Em busca de criticar a polarização, uma das partes fictícias do documentário mostra um jovem que se radicaliza em um partido de “extremo centro” com ajuda das fake news. O trecho termina em uma análise sobre a ameaça que essa polarização representa à democracia, ilustrada pelas eleições nos Estados Unidos e Brasil. A rapidez e falta de profundidade dão a entender que as redes sociais são os grandes (talvez únicos) motores das eleições de Trump e Bolsonaro. Mas teriam eles saído diretamente dos códigos para materializar os inimigos da verdade e do bom senso?

Ao tratar a polarização de forma leviana, quem se restringe a esse documentário pode imaginar que as fake news são a grande marca da passagem de um consenso baseado no real para uma distopia tecnológica. No entanto, para os brasileiros, não seria um grande desafio decidir o que contribuiu mais para a eleição de Bolsonaro: a invenção de fake news pitorescas, como a “mamadeira de piroca”, ou os quatro anos entre o início da operação Lava-Jato e a eleição de 2018 de um falso discurso anticorrupção, criminalizador da política e dos governos Lula e Dilma, proferido todos os dias em plena grande mídia, teoricamente fonte confiável de informação.

Também nos Estados Unidos, que é considerado no mundo liberal um exemplo de democracia e de liberdade de imprensa, a tecnologia não foi bem recebida pela imprensa tradicional quando se tratou de revelar as verdadeiras notícias. A organização WikiLeaks, criada por Julian Assange com a missão de publicar informações confidenciais e documentos de fontes anônimas de interesse público, denunciou diversos escândalos jamais cobertos pela mídia americana – mesmo depois de virem à tona. Entre guerras, intervenções externas e questões de política nacional, o WikiLeaks mostrou, por exemplo, o alinhamento das elites americanas contra a candidatura de Bernie Sanders na eleição de 2016, que acabou por eleger Donald Trump. Ao conquistar relevância no cenário americano, Assange foi obrigado a fugir do país e hoje está preso em péssimas condições na Inglaterra. Enquanto isso, as informações que contam os bastidores dessa democracia circulam, em grande medida, apenas em mídias alternativas.

Não se trata, contudo, de ignorar o fenômeno das fake news, nem de fingir que há perfeita continuidade em relação ao que era feito antes. Há, certamente, um deslocamento entre um ataque focado na “defesa de interesses”, que distorce e recria a realidade para que ela se encaixe em uma determinada visão política, e uma afronta a tudo que poderia ser estabelecido como comum: a ciência, e os avanços sociais para minorias, por exemplo. A gravidade do fenômeno é de fato distópica, pois passa a ser cada vez mais difícil pensar uma unidade dentro desta nova sociedade.

Trata-se, então, de reconhecer o salto em um processo de desinformação que já vivíamos, com mais ou menos intensidade, dependendo do local do mundo e momento histórico. Mesmo não sendo a temática principal do documentário, seria possível entender as fake news também do ponto de vista de seu financiamento e da desconfiança geral em relação às mídias tradicionais, enfraquecidas economicamente pela internet. A crise da democracia poderia ser ampliada se tratada a partir da análise da história recente, que culmina, de um lado, na concentração de renda e estagnação de salários e, de outro, na época com maior concentração de monopólios da história, com protagonismo das próprias empresas de tecnologia.

O livro The Myth of Capitalism: Monopolies and the Depth of Competition, de Jonathan Tepper, documenta a história dos monopólios – ou, de forma geral, da concentração industrial – que se estabeleceram a partir dos anos 80, com passagem importante pelas empresas de tecnologia. Além de contextualizar o problema em seu momento histórico, seria importante desmistificar que esta é uma via de máxima inovação. A revista liberal The Economist manifesta há décadas preocupação com a falta de inovação na economia americana. O fundador do Paypal, Peter Thiel, afirmou em 2013 que a inovação dos Estados Unidos estaria “entre uma situação desesperadora e a morte”. Em seu livro, Tepper explica como a era dos monopólios é parte da explicação desse fenômeno. Além disso, a pesquisa feita com fundos privados em detrimento dos fundos públicos se mostra mais produtiva do ponto de vista do lucro, mas menos produtiva do ponto de vista da inovação.

Outro assunto que fica de fora desse dilema é a exploração geopolítica das GAFA, que tem alto potencial para uso de espionagem. Ironicamente, o único líder político a ser vinculado a essa temática é o presidente russo Vladmir Putin, em um trecho que evoca a participação de hackers russos na propagação de fake news por governos autoritários. Além de curto e pouco ligado ao que é falado no documentário, a cena fica desconexa em um roteiro que evita a relação entre tecnologia e Estado nos Estados Unidos, mesmo que todas as empresas em questão sejam norte-americanas e que haja provas do potencial geopolítico do domínio deste mercado. O caso Snowden, por exemplo, levantou a questão quando demonstrou que a NSA (agência de segurança nacional americana) possuía um amplo sistema de escutas telefônicas e de vigilância pela internet, visando espionar governos em todo o mundo.

É sintomático o fato de restar tão pouco tempo para a última parte, em que o documentário pretende desenvolver as soluções para o caos apresentado. Sem um horizonte possivelmente mais utópico, mas mais instigante, de “softwares livres”, ou mesmo a esperança de um ambiente menos feudal para as redes – onde a terra é dividida entre gigantes – restam algumas palavras sobre regulamentação, mudança no bussiness model e importantes atitudes individuais, como desativar as notificações dos aplicativos. Mas seriam essas regulamentações possíveis de serem executadas em um ambiente onde há tanto poder concentrado nessas corporações? A que ponto a internet pode ser de fato democrática nessa mesma configuração?

Em suma, O Dilema das Redes é um documentário relevante nesta fase do desenvolvimento tecnológico; uma primeira reflexão sobre o tema. Ele chama a atenção para os riscos dos algoritmos geridos pelas GAFA e o faz explicando que a forma exploração da tecnologia é uma escolha política dentro de um sistema capitalista, mesmo que evitando confrontar diretamente esse fato. No entanto, falha ao não fazer uma análise mais profunda do porquê chegamos até aqui – contar a história da resistência a esse caminho poderia fornecer perspectivas mais iluminadoras. Trata, também, de maneira simplista a polarização e a democracia e encobre temas importantes. Será, por essa via, difícil produzir o engajamento político necessário para essa luta tão importante por uma internet feita para a informação e liberdade.

Autor: Clara Lage

Quando criança sonhava em ser poeta, tornei-me Matematica. Hoje pós doutoranda na École Polytechnique, trabalhando com Otimização e Estatística. Trago da matemática o gosto pelo rigor e pela vontade de entender a estrutura de cada assunto. Levo da poesia um certo idealismo, e o eterno gosto pela observação do mundo.

3 pensamentos

  1. Ni! Sarve, cheguei aqui pelo Baixa Cultura, que citou teu texto. Você conhece a turma? Em todo caso, muito bacana. Só achei que faltou amarrar melhor o final. Não acha que “uma _primeira_ reflexão sobre o tema” é justamente o que você tentou mostrar que o texto não é? hehe. Sempre legal encontrar gente capaz de discutir esse tema em bananês. Eu também estou na França, e recentemente tive contato com a diretora de um programa da Unesco chamado Information for All, cuja sede é em Paris, e que está envolvida nesse tema da regulação das plataformas e redes. Ainda a ver se vai pra algum lugar esse papo, mas se te interessar mande um sinal de fumaça, é sempre bom ter mais defensores do Livre nessas horas. Abs, ale .~´

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Ale, legal que você veio por la! Eu vi a publicação deles sim.
      Obrigada pelo comentario. Sobre o final, acho que seria uma “primeira” reflexão pois o filme expoe questões importantes, mesmo que elas estejam mais ligadas ao que observamos na vida cotidiana (pessoas sendo radicalizadas, depressão etc..) do que propriamente uma boa exploração da questão politica. Sempre bom conhecer pessoas interessadas, e especialmente envolvidas, nesse tema. Se vc puder me passa o nome da diretora e guardamos contato. Por me enviar um email; clarammlage91@gmail.com
      Abraço!

      Curtir

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