Uma história em cem mil

Minha avó

Argentina Botelho foi mulher, esposa, mãe, avó, bisavó e amiga. Ao longo de seus oitenta e nove anos, lutou e venceu muitas batalhas. Cresceu em um colégio interno – onde viveu por dezoito anos – e venceu o câncer duas vezes, quando muito se estigmatizava e pouco se sabia a respeito dessa doença. Também venceu a árdua tarefa de criar e educar três filhos com dignidade e zelo. Deixou como legado uma família fundada sobre as sólidas bases da retidão de caráter e da justiça. Deixou três filhos, quatro netos e um bisneto.

Durante toda a sua trajetória, Argentina empregou essa força descomunal que habitava seu coração nas tarefas de casa e nos cuidados de quem amava. Começava os afazeres domésticos invariavelmente às cinco da manhã e não se descuidou um dia sequer do seu lar. Como minha avó, cuidou de mim desde os primeiros dias. E, durante parte da minha infância, envolveu-me em sua presteza e em seu carinho. Em muitas noites frias, levantou-se para me dar chá com leite em pó ou me cobrir. Cozinhou bolos e broas com minha irmã, trocou confidências, chorou com sua partida para a Alemanha e riu muitas e muitas vezes ao ver fotos do bisneto.

O ser humano Argentina Botelho foi pacífico e gentil. Evitou ao máximo incomodar as pessoas e fez disso o seu lema. Gostava de fazer pequenos agrados. Viveu a sua vida simples sem importunar ninguém.

A mulher Argentina Botelho foi uma mulher simples. Gostava de pintar o cabelo de preto, usar vestidos floridos e calçar sapatinhos pretos. Não foi de luxos e gostava de assistir TV sentada em uma cadeira de plástico, mesmo quando tinha um sofá confortável à sua disposição. “Pra mim assim já tá bom” era o que sempre dizia. Seu último pedido foi um creme e um pente.

Foi nos detalhes dos seus gestos, nas singelas demonstrações de carinho, na sua prontidão que Argentina Botelho revelou o tamanho do seu coração. E foi assim que ela conquistou espaço dentro dos corações daqueles que a cercavam. E é dentro desses corações onde ela viverá para sempre.

A minha avó faleceu no dia 14 de agosto de 2020 devido ao COVID-19. Ela se foi após muita luta, como fez em toda a sua vida, foi-se após trinta dias no CTI.

Há quem diga que a minha avó é só mais uma em 100 mil e que 100 mil é um número bem pequenininho perto dos 200 milhões de brasileiros. Para mim e para a minha família esse UM tem um peso muito maior que 200 milhões. E para nós, antes de ser qualquer número, Argentina Botelho foi mulher, mãe, avó, bisavó e amiga.

Descanse em paz, vó.

Te amo.

Autor: Rodrigo Ribeiro

Rodrigo pensa que é poeta, escritor e fotógrafo, porém a única profissão que a sociedade reconheceu mesmo foi a de matemático, curiosamente a que ele menos lutou para seguir. Atualmente é Visiting. Assistant Professor na Universidade do Colorado Boulder, mas também gostaria de ser um travesseiro bem macio, que é pra não quebrar com as pancadas da vida.

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